Contos da Chris

Despiu. Partiu.

Contos da Chris

Atravessou o esterno, a carne e a pele, e saiu do peito. Acionou suas pequenas hélices — pop, pop, pop, pop etc — para poder ficar flutuando no ar. Então, dobrou com cuidado o corpo que habitou, guardou-o no bolso do miocárdio e partiu. Era um coração livre e voava de volta pra casa.   *************** Ilustração: Luiz Duarte

A louca que morava no alto do muro

Contos da Chris

Era muito louca a louca que morava no alto do muro. Lá de cima de seu pedestal de 50 metros, ela podia ver tudo o que acontecia com o povo que vivia no chão. E, por isso, todos temiam muitíssimo a louca que morava no alto do muro. Às vezes ela sentava-se na beira, balançando as pernas, e dizendo coisas perigosas do tipo “entre os desejos e as realizações destes transcorre toda a vida humana” ou “um insulto supera qualquer argumento”. Nesses momentos, ela aproveitava para atirar moedas de chocolate Pan para as almas perdidas do chão. À noite, quando o povo do chão dormia e sonhava, a casa da louca era palco de festas incríveis. Muita gente famosa foi[…]

O vendedor de cachorro-frio e essa grande questão existencial

Contos da Chris

Há quem, quando precisa conversar consigo mesmo, prefira olhar-se no espelho e resolver a situação. Mas ela não era desse tipo. Não ela. Sempre preferiu lugares abertos para esse tipo de chat. Por isso estava aqui, na praça. Para que não fosse confundida com outra louca a falar sozinha, dividia-se em duas partes: uma delas era essa grande questão existencial, uma metade pesada que simplesmente não entendia. Dúvida, ansiedade e aporrinhação. A outra metade era boa demais para ser verdade, era um vento na praia, era um vendedor de cachorro-frio. E, sentadas lado a lado, uma metade e outra, que antes eram ela, começavam a papear. Isso vinha acontecendo com cada vez mais frequência — provavelmente por culpa da metade[…]

A coisidade da coisa ou… foi-se um bago.

Contos da Chris

Aproximou-se do homem que gritava para uma enorme bola flutuante: — Desça já daí! Não me venha com gracinhas logo agora. — Que coisa é essa? — Coisa? Que coisa? — Essa bola enorme aí flutuando? — Ah, é meu bago esquerdo. Fugiu faz um tempo. Desde então em venho rolando o danado morro acima, mas ele sempre escorrega e vai parar lá embaixo de novo. — Seu bago esquerdo? — Ou direito. Já não sei. O que sobrou deslocou-se para o meio do saco. Entende, né… — Não, não entendo de bagos. Sinto muito. — Como não?! Todo homem entende de bagos. — É que não sou homem. Apenas me disfarço, vestindo-me como um. — Ah… nem reparei. Tá[…]

Meu pé de vento

Contos da Chris

Considerava sinceramente que havia atingido um bom nível de paz interior. Mas, quando olhava para trás, entrevia um rastro de reticências que parecia dizer que algo ainda estava faltando. Como assim? Não era mais para você estar aí… — divagava, confusa (mas não muito). Alguns dias achava que só mesmo umas três outras vidas ou um bom pé vento varreriam todas aquelas reticências insistentes para longe. Outros dias considerava que elas eram apenas um eco da confusão passada. [barulho de ventania] A saia levantou, deixando as pernas brancas à mostra. Lip cambaleou mas não caiu. O pé de vento calçava 43 e des…recalcou facilmente o rastro dos trios de pontos. No céu, uma nuvem sorria. Três outras vidas, o cacete. Ponto.[…]

1, 2, dia 3 (ou não, sim e não sei)

Contos da Chris

Era uma vez um vale de rochas. Muuuuuito alto, circular, com água no fundo. Não era um poço. Era um vale de rochas muito lindo. De tão alto, não ventava na água e ela descansava o tempo todo. Mas a água parada não fedia. Era uma água muito límpida. Certo dia passou um espírito voando sobre a água. Era espírito mas bem podia ser pensamento. Voava tão velozmente que — pitchuuuu! — fez tremer o círculo de rochas. Tremeu tudo. O resultado foi um abalo mental nas rochas — crac, crec, cruc. Um pedra desceu rolando lá do alto. Rolou, quicou, rolou e parou bem acima da água. Tipo um palmo acima da água, a pedra ficou parada, levitando. Aí[…]

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Contos da Chris, Mix

Texto: Christina Castilho, publicado originalmente no livro Ser ou… nonsense. Belo Horizonte: Mondana, 2008. Ilustração: Luiz Duarte.

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