O vendedor de cachorro-frio e essa grande questão existencial

O vendedor de cachorro-frio e essa grande questão existencial

Contos da Chris

Há quem, quando precisa conversar consigo mesmo, prefira olhar-se no espelho e resolver a situação. Mas ela não era desse tipo. Não ela.

Sempre preferiu lugares abertos para esse tipo de chat. Por isso estava aqui, na praça.

Para que não fosse confundida com outra louca a falar sozinha, dividia-se em duas partes: uma delas era essa grande questão existencial, uma metade pesada que simplesmente não entendia. Dúvida, ansiedade e aporrinhação. A outra metade era boa demais para ser verdade, era um vento na praia, era um vendedor de cachorro-frio.

E, sentadas lado a lado, uma metade e outra, que antes eram ela, começavam a papear. Isso vinha acontecendo com cada vez mais frequência — provavelmente por culpa da metade que era a grande questão existencial. Sim… porque, se dependesse do vendedor de cachorro-frio, estariam ambos voando de balão e dando gargalhadas.

Mas, não… ao invés do balão, estavam ali, na praça.

— Tá acontecendo uma coisa estranha… — começou a metade que era essa grande questão existencial — o abismo está se expandindo de forma absurda… e, pra piorar, roubaram a chave do abismo.

— Acontece… mas sempre se pode voar, não é?! — disse o vendedor de cachorro-frio.

— Acho difícil. Nossas asas são cortadas no nascimento e passamos a vida tropeçando porque nossa natureza não é andar, e sim voar. — lamentou a grande questão existencial.

— Oh! Será por isso que minha sombra tem asas? — exclamou, surpreso… e rindo.

— Você ri… — lamenta ela — mas não vê que, no final, a gente perde tudo.

— Você está falando de amor. Aposto. — arrisca ele — Mas, pensando bem, se até o paraíso foi perdido, por que não seriam perdidos também os amores?

— Minha mente está insana nesse corpo santo. É. — diz ela baixinho… como quem preferiria não dizer.

— Por que você não tenta uma vida com mais epifanias na carne? — questionou o vendedor de cachorro-frio.

Só os famintos me atraem, como aqueles que criaram o veludo devorê e os vácuos da carne-alma. SIM, SIM e SIM. — grita uma andorinha-moça ao passar voando por perto deles.

— Ué… você de novo? — perguntou ele para a andorinha. (aparentemente a tal andorinha era um personagem recorrente nas autoconversas).

É, eu me repito muito. — explicou-se a andorinha.

— Gente que vai… e volta. Não entendo. — resmungou o vendedor de cachorro-frio.

— Vocês estão fugindo do assunto! — implicou a metade que era essa grande questão existencial.

— Minha vida é essa: tomar coca-cola e quebrar promessa. — riu-se o vendedor. — Quer um pouco? — perguntou, estendendo a latinha de coca zero.

— Esse aspartame ainda vai nos causar Alzheimer… vai vendo… — disse ela, sabendo que não seria ouvida mesmo.

Poeirinha da poeira achando que vento é deus. — passou gritando de novo a andorinha.

Desta vez os dois ignoraram. A grande questão existencial porque não queria dar cartaz para a andorinha e o vendedor de cachorro-frio porque estava no meio de um gole de coca.

— Você acha que é livre, mas na verdade está em liberdade condicional. — continuou ela. — E aí, como viver? Só mesmo com muita fé, viu…

— Não tenho fé, graças a deus. — pontuou ele.

— E como você consegue ir adiante? — perguntou a grande questão existencial.

— Diante do impossível, só me resta cagar. — respondeu ele.

— Não me parece uma coisa muito certa a se fazer. — disse, indignada.

Nem sempre o que é certo é certo. — gritou de novo a miserável da andorinha.

— Eu disse que não me parece uma coisa muito certa a se fazer… isso de simplesmente cagar. — repetiu ela.

— Então, eu simplesmente lambo.

Ele podia estar certo. Então, ela calou-se, mesmo sabendo que quem cala cão sente-se.

 

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Ilustração: Luiz Duarte