A louca que morava no alto do muro

A louca que morava no alto do muro

Contos da Chris

Era muito louca a louca que morava no alto do muro. Lá de cima de seu pedestal de 50 metros, ela podia ver tudo o que acontecia com o povo que vivia no chão. E, por isso, todos temiam muitíssimo a louca que morava no alto do muro.

Às vezes ela sentava-se na beira, balançando as pernas, e dizendo coisas perigosas do tipo “entre os desejos e as realizações destes transcorre toda a vida humana” ou “um insulto supera qualquer argumento”. Nesses momentos, ela aproveitava para atirar moedas de chocolate Pan para as almas perdidas do chão.

À noite, quando o povo do chão dormia e sonhava, a casa da louca era palco de festas incríveis. Muita gente famosa foi vista por lá. Zarathustra, David Copperfield e, uma vez, até um faraó maldito. No final das festas, invariavelmente, a louca corria pra lá e pra cá — sua imagem ficava difusa —, soltando faíscas e notas agudas. Era impossível distinguir convulsões de orgasmos.

Certa vez quase pulou de cabeça a louca. Mas adiou.

Era muito sábia a louca que morava no alto do muro.

 

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Ilustração: Luiz Duarte