A coisidade da coisa ou… foi-se um bago.

A coisidade da coisa ou… foi-se um bago.

Contos da Chris

Aproximou-se do homem que gritava para uma enorme bola flutuante:

— Desça já daí! Não me venha com gracinhas logo agora.
— Que coisa é essa?
— Coisa? Que coisa?
— Essa bola enorme aí flutuando?
— Ah, é meu bago esquerdo. Fugiu faz um tempo. Desde então em venho rolando o danado morro acima, mas ele sempre escorrega e vai parar lá embaixo de novo.
— Seu bago esquerdo?
— Ou direito. Já não sei. O que sobrou deslocou-se para o meio do saco. Entende, né…
— Não, não entendo de bagos. Sinto muito.
— Como não?! Todo homem entende de bagos.
— É que não sou homem. Apenas me disfarço, vestindo-me como um.
— Ah… nem reparei. Tá dando certo.
— Mas… me explique direito: como alguém pode perder um bago?
— Oras… se até o paraíso foi perdido, por que não seria também meu bago?! Por quê? Me diga.
— Bem… é que me parece loucura isso.
— Se lhe parece loucura, então você entendeu.
— E por que ele está flutuando acima de nossas cabeças agora? Por que não rolou morro abaixo?
— Ah, precisamente… por quê? por quê?
— Acho melhor o senhor deixá-lo em paz… ele pode cair na sua cabeça e acabar lhe matando.
— Morrer é o menor dos meus problemas…
— É verdade. Melhor morrer do que viver sem o bago direito.
— Esquerdo.
— Ah, é o esquerdo afinal?
— Talvez. Já disse que não me lembro.
— Tudo bem… lembranças entulham a vida.

[De cima, a grande bola olhava para os dois abrindo sua boca enorme.]

— Acho que não estou me sentindo bem…
— O senhor está passando mal? Quer que chame um médico?
— Não sei se é doença… é um aperto vazio aqui no peito… quer dizer, começa no peito e vai para o saco, e volta.
— Ah, imagino que seja angústia. Sinto muito.
— Angústia… em francês angoisse, em inglês anguish, em grego αγωνία, em tcheco úzkost, em japonês 苦悩.
— É.

O homem estava inconsolável.

— Acho que o senhor sublimou seu bago.
— Nonsense! Por que eu faria uma bobagem dessas?!
— Bem… me parece óbvio… porque somos feitos de carne e de medo.

O homem olhou com desdém, como quem diz: “— vai embora, se faz favor…”

No instante seguinte, a grande bola já não estava mais lá.

— Onde está? Pra onde foi? Deus… — suplicou o homem desesperadamente.
— Deixa pra lá… não era real.
— Não era?
— Não sei. Talvez.

E ficaram ali: a terra, o céu, os dois mortais e aquela enorme presença da ausência do bago.
Ao longe, um sino dobrava: das ding, ding, ding… ding… ding…

 

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Ilustração: Luiz Duarte.